quinta-feira, 26 de agosto de 2021

Excesso de realidade - não quero mais

Eu tava conversando com uma amiga no Whatsapp. Nossa dinâmica é assim: eu mando textões e ela manda áudios grandes. Funciona bem. Porque eu vou ouvindo e escrevendo. E ela vai lendo e falando. Eu tava falando com ela sobre como não ando muito bem nas últimas semanas. Juntou uma TPM nunca antes vista, com muitos sintomas físicos (muito bom menstruar! O sagrado feminino!!!), a reação da vacina e os efeitos colaterais que ainda sinto tomando Roacutan (não vejo a hora de acabar, mas medo de voltar as espinhas. Aiai muito boa a jornada do auto conhecimento, né). Desmarquei uma ligação com ela porque tava triste e me sentindo péssima companhia. Ainda me sinto assim, mas abriu uma brechinha de luz que me permitiu pensar um pouco nas razões pelas quais estou passando por esse momento cinza e foi justamente enquanto eu falava com ela que me dei conta: excesso de realidade.

 

Claro que, em mais de um ano de pandemia, muita gente, se não todo mundo, já sentiu que o excesso de realidade não cai bem se a gente fica exposto muito tempo e quase todo mundo já tentou em algum momento se desconectar da realidade pra ver se sente algum tipo de alívio. Drogas, álcool, k-pop, anúncios de apartamentos caríssimos que nunca serão comprados, etc. Eu, sinceramente, não sucumbi a nenhuma dessas alternativas (infelizmente, pois eu bem queria uma droga) e simplesmente fui esperando meu cérebro fazer esse trabalho sozinho.

Porém, costumava sonhar, tipo viajar na maionese, sabe - ou devaneios como a minha irmã fala - com várias coisas. Minha viagem pro Brasil, uma viagem sozinha pra Europa onde vou encontrar essa minha amiga e seremos felizes demais, tomando gelato na Itália, ou até mesmo no momento que a escola vai voltar e e ter minhas manhãs de silêncio e paz novamente.

O problema é que não tenho conseguido fazer mais isso. A vida adulta tá realmente me engolindo. E eu sinto que já tô sendo até digerida. Quem permitiu que a gente crescesse, meu deus?

 

Tenho tido ataques de ansiedade. Do nada me dá um frio na barriga, como se eu tivesse uma apresentação pra fazer e estivesse prestes a subir no palco (nunca me apresentei num palco - a não ser uma vez que dancei Stronger da Britney no ensino médio (foi ótimo!)) e tem uma técnica bem famosa e eficaz pra, aos poucos, sair do ataque de ansiedade que é focar no que é real, no que tá na tua volta, no que tu consegue ver. Objetos, pessoas, cores, etc. Eu acho que me aprofundei muito nessa técnica, porque passei a praticar mesmo fora do ataque de ansiedade e expandi as coisas nas quais focar. Então, por causa disso, constantemente me vejo focando nas contas pra pagar, na máquina de lavar roupa que faz um barulho surreal quando tá funcionando (eu não sei como não recebemos nenhuma reclamação ainda. O isolamento acústico deste apartamento tá de parabéns), nas mini formigas que eu descobri no apartamento e como me livrar delas, na minha ida ao Brasil com minha filha que não tá vacinada, nas aulas que eu preciso dar, nos planejamentos que preciso fazer.

E ok, talvez vocês me digam que é relativamente normal pensar nessas coisas, mas eu sinto que tá passando um pouco dos limites, porque meus ataques de ansiedade estão voltando e eu não tô conseguindo voltar para o princípio básico da técnica aquela. Além disso, tenho achado muito difícil me desconectar da realidade. Leio duas páginas de algum livro, paro e vou limpar algo (o que também tem se tornado uma pequena obsessão), começo a jogar algo e 5 minutos depois dispersei e não quero mais. Nem ver um episódio inteiro de alguma série eu consigo mais.

 

Então assim, o que fazer? É um post pedindo conselho? Sim. Eu poderia estar fazendo isso na terapia? Com certeza, e o farei, mas quem leu minha newsletter (cof, cof, assinem) sabe que a minha psico gosta de ir a fundo nas questões e agora eu quero muito ir no raso, bem raso, boiar nas questões e não pensar mais nelas.

Então, basicamente eu tô perguntando qual droga pesada eu preciso me viciar. Pela atenção, obrigada.



segunda-feira, 12 de abril de 2021

Quer perguntar? Pergunta. É de bom tom? Nah

Recentemente eu abri uma caixinha de perguntas lá no instagram achando, como sempre, que ia flopar, porque eu sou anônima na internet e ninguém liga pro meu perfil. Mas eis que uma das perguntas era simplesmente: Trabalhas?

Pergunta boba numa primeira olhada, mas eu senti um peso ali, uma coisinha, uma provocação. A pessoa que me perguntou isso acompanha meus stories, meu perfil, ou seja, ela sabe o que eu faço.

Eu sou mãe.



E isso é um trabalho. Um baita trabalho. Não levar isso em conta ao fazer essa perguntinha inocente é de uma falta de sensibilidade sem tamanho. Sempre me posicionei contra nessa coisa de ser SÓ mãe. Eu odiava esse status, eu queria estar lá fora trabalhando, nos termos formais da palavra. Eu achava que isso me completaria e que ser SÓ mãe não combinava com quem eu era.

Mas quem eu era deixou de existir quando a Lara nasceu e eu demorei a perceber isso. Me dei conta também que é um mega privilégio poder ficar em casa criando filho. Um mega mesmo. E no momento que eu aceitei isso ficou tudo bem. Eu aceitei que ser mãe é um trabalho da porra, e posso dizer com todas as letras e com um baita orgulho que eu exerço essa profissão bem pra caramba. É um job eterno, completamente não remunerado, exaustivo demais, enlouquecedor em diversos sentidos (eu to criando uma pessoa!!!!), mas que compensa. Muito! É incrivelmente lindo ver uma criança crescer e fazer parte do desenvolvimento dela. Eu sou eternamente grata por ter minha filha. Ela faz minha vida melhor, me fez pessoa melhor e eu sou simplesmente a melhor mãe que ela poderia ter.

Isso não é uma campanha pró-filhos, vejam bem. Aliás, eu faço campanha contrária sempre. Não tenham filhos. Especialmente agora. Pior ainda se estiverem no Brasil. Esse texto é mais um alerta. Comecem a considerar as mães que ficam em casa como pessoas que trabalham. Comecem a perceber a carga mental que esse trabalho impõe e parem de perguntar “mas o que tu faz ALÉM de ser mãe?”.

Cês tão contratando por acaso?